O Brasil gasta mais para sustentar partidos políticos do que para financiar a ciência. Em 2026, o fundo eleitoral e o fundo partidário somaram cerca de R$ 6 bilhões em dinheiro público. Enquanto isso, o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), principal órgão de fomento à pesquisa do país, ficou em torno de R$ 1,92 bilhão.
A comparação foi feita pelo Ranking dos Políticos, com base em dados do CNPq e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o levantamento, para cada R$ 1 investido em pesquisa científica, o Estado repassa R$ 3,07 ao sistema partidário.
O fundo que quase quintuplicou
O valor do fundo eleitoral não caiu do céu. O governo federal enviou a proposta de orçamento com R$ 1 bilhão para financiar as campanhas de 2026. No entanto, em setembro de 2025, a Comissão Mista de Orçamento do Congresso elevou o valor para R$ 4,96 bilhões, quase cinco vezes mais.
Para engordar o fundo, os parlamentares tiraram cerca de R$ 2,9 bilhões de emendas de bancada estadual. Além disso, cortaram aproximadamente R$ 1 bilhão de despesas discricionárias do Executivo, recursos que iriam para áreas como saúde, educação e assistência social.
O fundo partidário, por sua vez, garante mais cerca de R$ 1,2 bilhão por ano às legendas. Assim, o dinheiro chega aos partidos em ano de eleição e também fora dele.
A ciência na fila do aperto
Do outro lado, a pesquisa brasileira vive de recomposições pontuais. Em janeiro, o governo liberou R$ 186,3 milhões extras ao CNPq para manter bolsas. Contudo, o próprio presidente do órgão, Olival Freire Junior, admitiu que o valor ainda não era suficiente para estabilizar o pagamento dos bolsistas.
Por isso, entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) pedem a duplicação do orçamento do CNPq. Ex-presidentes do conselho chegaram a alertar que décadas de investimento em pesquisa estão em risco.
Em 2027, mais tesoura
O cenário deve piorar no próximo ano. Na proposta de Orçamento de 2027, enviada ao Congresso, o governo prevê corte de R$ 424,6 milhões nas bolsas da Capes. O órgão do Ministério da Educação financia a pós-graduação e a formação de professores.
Com isso, o número de bolsas previstas cai de cerca de 357 mil para 175 mil. Além disso, as bolsas de formação de professores despencam de 255 mil para 90 mil. O MEC afirma que negocia com a equipe econômica e com o Congresso para evitar a redução.
Por outro lado, uma lei aprovada em agosto mudou regras de despesas vinculadas para ajudar a fechar o Orçamento de 2027. Segundo nota técnica do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento, a mudança pode tirar de R$ 8,6 bilhões a R$ 16,6 bilhões de saúde e educação no ano que vem.
Prioridades invertidas
Os números mostram uma escolha política clara. Dessa forma, o Congresso encontrou bilhões para financiar campanhas, mas a ciência segue dependendo de remendos no orçamento.
O dinheiro dos fundos banca santinhos, marqueteiros e estruturas partidárias. Por outro lado, o do CNPq paga bolsas de mestrado e doutorado, laboratórios e pesquisas que podem gerar vacinas, tecnologia e inovação.
Por fim, a conta recai sobre o contribuinte, que financia as campanhas mesmo sem escolher o partido que recebe o dinheiro. Portanto, enquanto o sistema político se mantiver mais caro que a pesquisa, o país continuará investindo mais em eleger políticos do que em formar cientistas.






