Em vez de resolver a divergência internamente, como qualquer colegiado minimamente funcional faria, Zanin e Gilmar Mendes escolheram o caminho do confronto público. Em pleno domingo, os dois ministros dispararam ofícios cobrando da Polícia Federal um material que, segundo o próprio relator do caso, André Mendonça, ainda corre risco de comprometer investigações em andamento se for liberado sem critério. O resultado é mais uma cena de desgaste institucional, produzida pelos próprios ministros, dias antes de uma sessão que já promete ser a mais tensa da história recente da Corte.
Chama atenção o timing dos dois pedidos. Não é um requerimento técnico de rotina, é uma pressão coordenada, com prazo apertado imposto por Zanin, horas depois de Gilmar abrir a disputa publicamente. A linguagem usada por ambos, ao afirmar que “não existe hierarquia” no STF e que as provas “pertencem ao plenário”, soa menos como argumento jurídico e mais como recado direto a Mendonça, relator legítimo do processo até aquele momento. Se a intenção fosse resolver isso de forma discreta e institucional, bastaria uma conversa entre os gabinetes, não uma sequência de ofícios divulgados à imprensa em questão de horas.
O relator vira o vilão da história, mesmo com argumento razoável
Mendonça alegou que abrir a íntegra do material antes da sessão poderia tumultuar o julgamento e prejudicar apurações ainda em curso. É um argumento técnico defensável, o tipo de cautela que normalmente se espera de quem lida com prova sensível em investigação sigilosa. Mesmo assim, ele foi tratado, na prática, como o obstáculo a ser vencido, e não como um colega cuja posição merecesse, no mínimo, debate reservado antes de virar disputa pública.
O custo para a imagem da própria Corte
Cada novo capítulo dessa queda de braço reforça a sensação de que o STF hoje funciona menos como um colegiado coeso e mais como uma arena de interesses individuais, com ministros usando despachos como munição política uns contra os outros. Zanin e Gilmar podem até estar certos no mérito, o acesso simétrico a provas é, de fato, um princípio importante. Mas a forma escolhida, pressão pública, prazo de horas, ofícios em sequência num domingo, contribui mais para expor a fragilidade da Corte do que para fortalecer a legitimidade do julgamento que se aproxima.






