O percentual de famílias brasileiras endividadas chegou a 81,6% em maio de 2026, renovando o maior patamar da série histórica iniciada pela Confederação Nacional do Comércio em 2010 e o nível mais alto desde 2015. Os dados são da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC com base em entrevistas com aproximadamente 18 mil consumidores em todas as capitais do país e no Distrito Federal.
A inadimplência também avançou, chegando a 29,9% em maio. O percentual de famílias que declararam não ter condições de quitar as dívidas em atraso se manteve em 12,3% pelo terceiro mês consecutivo, sinalizando uma camada de endividamento crônico que não cede mesmo com a leve queda recente da taxa Selic. Os juros médios para pessoas físicas recuaram apenas 0,3 ponto percentual entre fevereiro e março, permanecendo em patamar elevado e corroendo a capacidade de pagamento das famílias.
O cartão de crédito segue como a modalidade mais usada, presente em 84,6% das dívidas das famílias, seguido por carnês de loja com 16,1% e crédito pessoal com 13,1%. O problema é que o instrumento mais popular é também o mais caro: os juros do cartão rotativo chegam a 428,3% ao ano, tornando qualquer deslize no pagamento da fatura uma armadilha de difícil saída.
O recorte por renda expõe uma divisão preocupante. As famílias com renda até três salários mínimos registraram o maior avanço da inadimplência no mês, com alta de 1,7 ponto percentual, bem acima das demais faixas. São também as únicas que apresentaram crescimento no indicador de famílias sem condições de pagar dívidas em atraso na comparação anual. As famílias de maior renda, por sua vez, conseguem absorver o endividamento sem transformá-lo em calote, o que indica que a deterioração financeira está concentrada na base da pirâmide.
Há, no entanto, sinais menos negativos no perfil do endividamento. O tempo médio de atraso recuou levemente para 65,0 dias. O percentual de famílias com inadimplência superior a 90 dias caiu para 49,3%, o menor nível do ano. O comprometimento médio da renda com dívidas recuou para 29,3%, o menor resultado desde maio de 2019. E o percentual de famílias com dívidas de prazo superior a um ano subiu para 33,3%, o que dilui as parcelas mensais e alivia o orçamento no curto prazo.
A CNC projeta continuidade da alta do endividamento nos próximos meses, com leve crescimento das contas em atraso. O governo lançou o Desenrola 2.0 em maio, e a expectativa é que o programa replique parte do impacto da primeira edição, que em 2023 desacelerou o endividamento por cinco meses consecutivos após sua implementação.






