Há sete meses, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tem em mãos um relatório da Polícia Federal com suspeitas graves sobre a relação entre o ministro Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master. A reportagem é da revista Piauí, que teve acesso ao documento que foi liberado no final deste dia 10 de setembro, a pedido de Fachin.
Segundo o relatório, Toffoli pode ser o beneficiário final ou o proprietário de fato do fundo de investimento Arleen, que recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro. O fundo era sócio do resort Tayayá, empreendimento que pertence à família de Toffoli em Ribeirão Claro, no interior do Paraná. Segundo a PF, documentos e comunicações apreendidos sugerem o uso de pessoas interpostas e estruturas no exterior para movimentar esses recursos.
Como o dinheiro saiu do país
De acordo com a apuração, toda a operação ocorreu ao longo de 2025. Em fevereiro, o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli e dono de uma empresa de segurança, comprou o fundo Arleen. No mês seguinte, ele registrou uma holding chamada Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas, território considerado paraíso fiscal, e alterou o regulamento do Arleen para autorizar investimentos no exterior. Em novembro, o fundo começou a se desfazer de suas cotas, e em dezembro transferiu cerca de R$ 34 milhões para a holding no Caribe.
O que diz Toffoli
Questionado pela Piauí sobre a existência de recursos no exterior, o gabinete de Toffoli negou qualquer operação direta ou indireta ligada às Ilhas Virgens Britânicas e afirmou que o ministro nunca manteve recursos fora do país.
A suspeita sobre o voto dos precatórios
O relatório traz ainda outra suspeita: a de que Vorcaro possa ter influenciado um voto de Toffoli em uma causa sobre precatórios do setor sucroalcooleiro, com impacto direto na carteira do Banco Master, que somava mais de R$ 10 bilhões nesses papéis. Dias antes de julgar o caso da usina Alcídia, do grupo Atvos, Toffoli surpreendeu ao votar contra o padrão que historicamente adotava em casos semelhantes, dessa vez a favor da União. Mensagens trocadas entre integrantes do Master mostram pânico com a mudança, com direito a expressões de desespero e movimentação imediata para tentar reverter o cenário. Dias depois, o julgamento da Alcídia foi adiado após um pedido de vista, e Toffoli registrou ausência justificada. Quando o caso voltou a julgamento, meses depois, o ministro reverteu novamente sua posição e votou a favor da usina, para alívio do Master, que comemorou o resultado internamente.
Em nota, o gabinete de Toffoli negou qualquer alteração de posicionamento, afirmando que o ministro sempre votou da mesma forma em um caso específico envolvendo a Raízen. A informação é tecnicamente correta, mas não contradiz a suspeita: foi justamente nesse caso da Raízen que ele fugiu do padrão histórico, votando contra a União pela primeira vez, o que gerou a reação de pânico entre os ligados ao Master.
O relatório, batizado oficialmente de Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026, foi produzido a partir do celular de Vorcaro, apreendido em sua primeira prisão, em novembro de 2025. Por envolver um ministro do STF, o documento precisou ser enviado à Presidência da Corte antes de qualquer novo passo investigativo, o que limitou o avanço das apurações tanto sobre o voto dos precatórios quanto sobre a movimentação da offshore.
A troca de acusações entre Toffoli e Mendonça
Questionado pela Piauí sobre por que manteve o relatório sob sigilo sem tomar providências, Mendonça respondeu que o documento nunca lhe foi enviado especificamente. Já a nota de Toffoli argumenta que o caso já estaria arquivado, com decisão transitada em julgado, após reunião de fevereiro em que os dez ministros teriam tomado ciência do conteúdo e decidido não haver suspeição. Segundo a reportagem, porém, há uma imprecisão nessa versão: naquela reunião, os ministros arquivaram apenas a arguição de suspeição contra Toffoli, não o relatório da PF em si, que seguiu em posse da corporação e poderia ter gerado novas diligências ou mesmo a quebra do sigilo.






